sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

A linha que conecta as mulheres

Publicada em 29/1/2006
Revista Metropole
Misto de escola e museu, o Espaço Lee Albrecht, no Cambuí, conta um pouco da história do bordado através dos séculos e mostra como uma arte tão delicada pode ser benéfica a quem a pratica

Maristela Tesseroli
maristela@rac.com.br

Com muita discrição, uma boa dose de paciência e um capricho quase obsessivo, a artista Lee Albrecht trabalha com afinco em uma idéia inovadora que a persegue há alguns anos. “Precisamos montar um museu do bordado no Brasil”, propõe. “Somente por meio de um espaço assim é que poderemos resgatar a história das bordadeiras no País e preservar essa arte tão rica que nos foi trazida também pelos colonizadores europeus”.

Lee está empenhada na concretização de seu sonho e, praticamente sozinha, já deu início à empreitada. No Espaço Lee Albrecht Designs, localizado à Rua Emílio Ribas, no Cambuí, e já aberto à visitação, o resgate da história do bordado começa a ganhar forma.

Logo na sala de entrada, dentro de uma cristaleira, estão caprichosamente dispostas agulhas datadas do início do século 19, tesouras pertencentes a várias gerações da família Albrecht e uma coleção de dedais angariados por Lee e algumas amigas nas mais variadas partes do mundo.

Mas isso é só o começo. Do outro lado do salão, amostras de diversas técnicas em bordado, emolduradas para que o visitante possa apreciá-las melhor, recobrem a parede desvendando estilos históricos datados até dos séculos 17 e 18.

Espalham-se também pela sala ampla e bem decorada objetos interessantes como uma máquina de costura russa, utilizada no início do século 20; inúmeras bolsas bordadas, uma delas recoberta com nada menos do que 15 mil pedras; e até um avental bordado por Erna Albrecht, tia de Lee, durante a travessia de navio que essa imigrante alemã empreendeu para chegar ao Brasil em 1927.

“O bordado acompanhou os avanços tecnológicos da humanidade e o museu nos permitirá conhecer a história dos povos através dessa arte”, explica Lee, que está aceitando, inclusive, doações de material referente ao tema, como revistas, jornais, livros, bordados e bolsas antigas para enriquecer o acervo de seu espaço. “Acredito firmemente que o bordado seja a linha que conecta as mulheres em todos os séculos de nossa história”.

Mundo fascinante
A paixão quase palpável que Lee Albrecht demonstra pelo bordado teve início há 40 anos, enquanto ela circulava entre as tias e as avós, observando os trabalhos realizados por essas exímias bordadeiras da família.

“Cresci entre bastidores, linhas coloridas e agulhas. Incentivada por esse ambiente, aos 10 anos, comecei a bordar também”, recorda-se Lee que, a despeito da falta de incentivo da mãe por conta de seu alto grau de miopia, lutou e superou suas dificuldades tornando-se, ela também, uma talentosa artista do bordado.

Com formação na área das ciências exatas, Lee acabou tomando outro rumo profissional e, durante anos, relegou a segundo plano os trabalhos manuais. Até que uma amiga, conhecedora de seus dotes artísticos, convidou Lee para ministrar aulas em uma loja de armarinhos. A idéia era a de que a artista pudesse ajudar uma determinada aluna a superar suas dificuldades no bordado.

O talento de Lee rapidamente fez fama. Animada com a perspectiva de se dedicar ao bordado novamente, resolveu estudar com profundidade a história dessa arte através dos séculos. Pesquisas em livros e pela internet revelaram-lhe um mundo fascinante.

“Decidi, a partir daí, trabalhar para a montagem de um espaço, onde fosse possível resgatar o bordado enquanto arte e não apenas como mais uma atividade artesanal”, diz Lee.

Foi assim que a artista concebeu e montou o Espaço Lee Albrecht Designs, que funciona como museu e, secundariamente, como escola. “Aqui, nossa intenção é fazer com que as alunas aprendam o bordado através de panos de amostras e, assim que dominam a técnica, são convidadas a aprender a montar bolsas e a bordá-las a partir dos modelos que eu mesma crio”, explica Lee, que monta e disponibiliza às alunas kits contendo o tecido e as pedrarias necessárias para a confecção de cada modelo.

“Uma das coisas interessantes é que, gradativamente, estamos conseguindo acabar com a idéia de que bordado é atividade apenas para senhoras idosas. Tenho alunas de todas as faixas etárias, dos 17 aos 84 anos”.

Terapia em linha e agulha
Mais do que uma atividade econômica, Lee vê na escola um espaço onde o bordado pode se transformar em terapia. “No processo manual, as mulheres adquirem movimentos mais delicados, passam a apreciar e a dar valor às pequenas coisas”, defende. “O nível de concentração aumenta, sua auto-estima melhora porque passam a ser elogiadas por seu trabalho, e conseguem até controlar a ansiedade. É por isso que as mulheres que adquirem o hábito de bordar envelhecem com maior disposição”.
De fato, estudos neurológicos revelam que o poder de criação das mãos têm papel fundamental na recuperação da auto-estima e do bem-estar, trazendo resultados positivos para o aumento da capacidade de concentração e de planejamento de quem as usa.

Ao lado dos olhos e da boca, as mãos são as partes do corpo que têm maior representação no córtex cerebral. Isso significa que, quanto mais o ser humano usa esses órgãos, mais essas áreas cerebrais se expandem.

As alunas e os profissionais da área de saúde confirmam esses benefícios. “Bordar e costurar possibilitam a gratificante sensação de realizar o que imaginamos. Concretizamos com nossas mãos, as nossas idéias”, reitera a psicóloga Maria Lúcia Lattes. “A satisfação é ampliada quando há a possibilidade de desenvolver esta atividade em grupo. Encontramos no bordado e na costura momentos prazerosos de lazer, muito importantes para a manutenção do equilíbrio emocional e do bem-estar”.

Visita ao museu
Quase tão antigo quanto a humanidade, acredita-se que o bordado já fosse apreciado pelo homem há 30 mil a.C. Prova disso seria o fóssil do “Caçador da Groenlândia”, encontrado na Rússia, que tinha a indumentária ornamentada com grânulos de marfim. Como a maioria das outras artes têxteis e dos trabalhos com agulhas, a arte do bordado surgiu no Oriente Médio. No Espaço Lee Albrecht Designs, o visitante poderá ter uma pequena amostra das técnicas e dos instrumentos que acompanharam a evolução do bordado ao longo dos séculos.

Técnicas em bordado

Hardanger – elaborado com pequenos vazados, quadrados e formas geométricas, o hardanger segue a trama do tecido. É trabalhado com quatro fios, tanto na vertical quanto na horizontal. Caseado, ponto de cetim, ponto de cabo, ilhós, enchimento com fios cruzados e barras tecidas são alguns dos pontos usados nesta técnica.
A jour – a expressão francesa a jour significa “claridade” ou “aquilo que deixa passar a luz”. Por meio de pontos específicos, o bordado introduz aberturas e orifícios no tecido que criarão desenhos de diferentes tipos. Cada país ou região acabou por criar seus próprios desenhos surgindo, assim, o a jour americano, dinamarquês, norueguês e italiano. Alguns desenhos são tão complexos e sofisticados que acabam se aproximando da renda.
Pedrarias - técnica de bordado que faz uso de miçangas, vidrilhos, canutilhos, paetês, lantejoulas, pérolas e cristais. Registros arqueológicos mostram que as pessoas costumavam fazer uso das pedrarias há mais de cinco mil anos.
Assis – técnica que tem sua origem na cidade italiana de Assis. Muito utilizada na confecção de peças sacras, esta técnica é uma variação do ponto cruz. A diferença está no fundo do trabalho, que é preenchido e faz com que o desenho central apareça delineado pelos contornos.
Ponto cruz – os primeiros trabalhos que mostram pontos semelhantes ao ponto cruz foram encontrados por pesquisadores na Ásia Central e datam de cerca de 850 a.C. Mas é no Renascimento que o ponto cruz toma a forma pela qual tornou-se conhecido atualmente. O mouliné é uma das linhas mais utilizadas nesta técnica.
Blackwork – arte embasada em formas geométricas. Foi Catarina de Aragão, mulher de Henrique VIII, quem deu ao blackwork um caráter popular e não mais sacro como aconteceu até o século 16. Originalmente, o bordado era feito sobre um linho branco com fios de seda pretos, entremeados com fios de ouro.
Pattern darning – culturas de todo o mundo costumavam usar esta técnica de bordado para decorar artigos de roupa e linho de família. O ponto é simples e é conhecido entre as bordadeiras por “ponto de correr”, que pode ser feito na horizontal, vertical e diagonal.
Nossa fonte
Lee Albrecht, idealizadora do Espaço Lee Albrecht Designs - R. Emílio Ribas, 659, f. 3255-4838. e-mail: leealbrecht@mpc.com.br

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